Ócio (Aurélio 2005):
[Do lat. otiu.]
Substantivo masculino.
1.Descanso do trabalho; folga, repouso.
2.Tempo que se passa desocupado; vagar, quietação, lazer, ociosidade.
3.Falta de trabalho; desocupação, inação, ociosidade.
4.Preguiça, indolência, moleza, mandriice, ociosidade.
5.Trabalho mental ou ocupação suave, agradável.
No aforismo 329 do livro quarto em Gaia Ciência, Nietzsche (2004) fala sobre ócios e ociosidade. Sua reflexão começa falando sobre as aspirações dos estadunidenses ao ouro, ao lucro e ao seu frenesi no trabalho. E continua dizendo:
…tem-se agora vergonha do descanso; quase se experimentaria um remorso com a reflexão mais demorada. Pensa-se de relógio na mão, mesmo quando se está a almoçar, com um olho no correio da bolsa; vive-se permanentemente como alguém que tem medo de perder alguma coisa. (p.168)
Nietzsche fala também das conseqüências desse modo de viver, que em sua opinião:
…a prova está na pesada precisão que exige agora em todas as situações em que o homem deseja estar honestamente diante do seu semelhante nas suas relações com amigos, mulheres, pais, filhos, patrões, alunos…; …uma vez que a vida, tornada uma caça ao lucro, obriga o espírito a esgotar-se sem repouso no jogo de dissimular, de iludir ou de prevenir o adversário.( p.168 )
O que Nietzsche está descrevendo e presenciando é o espírito capitalista emergindo em sua forma plena pelo modo de vida organizado e estruturado em torno do processo de produção capitalista, que da origem a uma busca frenética e desenfreada ao lucro, ao consumismo em detrimento das relações sociais, dos prazeres da arte e da cultura.
Tal espírito capitalista, sintetizado na máxima “time is money”, ou seja, tempo é dinheiro, vai se desenvolvendo nos tempos de Nietzsche, fim do século XIX, e apresentará conseqüências nos dias atuais, em sociedades mais distintas como a sociedade brasileira, que a partir da década de 1950 se inserirá num mercado produtivo capitalista, e que também sofrerá impactos dessa concepção de mundo que impulsionou a formação da maior potencia econômica do século XX, os Estados Unidos da América.
De acordo com o referencial materialista histórico (BENJAMIN, W. 1987) as relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. As relações sociais do homem são tidas pelas relações que o homem mantém com a natureza, onde desenvolve suas práticas, ou seja, o homem se constitui a partir de seu próprio trabalho, e sua sociedade se constitui a partir de suas condições materiais de produção.
Seguindo esse referencial com recurso de interpretação, o que Nietzsche está descrevendo é a formação de uma ideologia que sustentará o capitalismo e criará consigo valores diferentes dos atuais (século XIX). Dentre esses valores vale destacar o consumismo, pela sua importância como sustentáculo do modo de vida atual, e pela influência nefasta de suas conseqüências para os relacionamentos pessoais.
Nesse momento, vale fazermos um retrospecto histórico (LEONARD, A. 2008): Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, as grandes corporações e o governo dos Estados Unidos estudavam uma forma de impulsionar a economia. Foi então que o analista de vendas, Victor Leboux, articulou a solução que se tornaria a norma de todo o sistema. Ele disse: “A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo a nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual a satisfação do nosso ego, no consumo. Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior. O conselheiro econômico do presidente Eisenhower disse: O principal objetivo da economia americana é produzir mais bens de consumo.
A partir de então, vemos uma sociedade construindo-se sobre as bases de um consumismo míope, descartável, marcada pela obsolescência percebida e pela obsolescência planejada. A primeira é marcada pela ação midiática que nos convence a jogar fora coisas que ainda são perfeitamente úteis, como roupas, sapatos da estação passada que não mais estão na moda; a segunda faz referência a uma outra forma de dizer que o produto foi criado para ir para o lixo, os produtos são fabricados de modo que sejam inúteis tão rápido quanto possível para jogarmos fora e voltarmos a comprar, como exemplo, hoje vemos os computadores, os aparelhos de TV, aparelhos eletrodomésticos.
Voltando à tese de que as relações que nós mantemos com os meios de produção influenciam, e até mais que isso, moldam nosso relacionamento com as coisas e as pessoas, podemos antever quais as conseqüências para as relações sociais, relações interpessoais em uma sociedade fundada no consumismo. A convivência em sociedade é marcada pela efemeridade dos relacionamentos, que são tratados como descartáveis. As relações sociais são passageiras e mesmo quando estamos em pleno gozo das boas condições em um relacionamento estamos sempre pensando e desejando algo melhor, como se o parceiro, o amigo, sofresse do mesmo processo de obsolescência que os produtos que compramos, usamos e descartamos no lixo.
Estruturado desse modo, o sistema atualmente vigente que regula nossas relações com os meios de produção e com as pessoas, nas relações pessoais cotidianas, é marcado por dois valores perversos: o repúdio ao ócio, marcado pela busca desenfreada do lucro; e o consumismo.
Os indivíduos acabam ficando presos na ilusão moderna do capitalismo de que quanto mais dinheiro e bens materiais tivermos mais felizes seremos; quanto mais novos são os meus aparelho eletrônicos, quanto mais novas forem minhas roupas, meu carro, mais bem realizado serei e mais feliz me tornarei. Esse complexo nefando e ilusório passa a ser procurado e perseguido de todas as formas pelas pessoas, que acabam atropelando os colegas de trabalho, desprezando a família, passando todas as horas disponíveis em busca do pote de ouro no fim do arco-íris. O detalhe é que tal pote de outro que trará a felicidade pode até ser encontrado, no entanto, a felicidade não estará junto dele. O vislumbre dessa conjuntura deixa as pessoas (que foram sempre, desde pequenas acostumadas a ouvirem de seus pais, professores, televisão, etc. que se fossem bem sucedidos, e tivessem posses seriam felizes) atordoadas, pois possuem tudo aquilo que se prega necessário à felicidade, mas não são nem de longe, felizes.
Isso traz a elas desespero, insegurança, angústia, tristeza, todos sentimentos que essa mesma sociedade diz serem perversos, ignóbeis e que devem ser expurgados, pois devemos ser sempre felizes (eis mais uma das ilusões da sociedade capitalista moderna). E esses sentimentos devem ser combatidos, e devem ser explicados, pois como eu posso me sentir assim, se tenho tudo necessário para ser feliz? Nesse momento a ciência, filha pródiga desse sistema capitalista, nos dará a explicação exata, de que nossos genes nos causam essa tristeza, de que está em nossa natureza sermos depressivos, ou sermos ansiosos, ou termos toc, ou é parte de nossa personalidade. Essa ciência acaba por compactuar para a reificação das relações humanas, e também para uma procura mágica, (melhor se vir em comprimidos, mas pode ser também na forma de terapia), de uma solução que exija o mínimo de esforço e de preferência possa ser comprada com o dinheiro que ganhei, pisando em meus semelhantes.
É nesse cenário que penso na prática clínica exercida por nós futuros psicólogos ou psicólogos já formados. Podemos deixar à margem todas as questões sociais e históricas que constituem não só os sujeitos, mas a produção científica e não cientifica que explicam ou compreendem esse sujeito, e adotarmos uma postura que reflita os sofrimentos e dificuldades das pessoas como características constitutivas de estruturas estáticas, ou podemos assumir a constituição histórica e social do sujeito, sujeito esse que faz parte de um todo maior, e fugirmos de determinismos, compreensões e explicações psicologizadas para fenômenos complexos como drogadição, pedofilia etc.
A ação do psicólogo quando deixa de ser focada no individuo e nos seus complexos, nas suas distorções, e passa a focalizar as estruturas sociais nas quais tal individuo está inserido e seu papel na sociedade, deixa de ser uma ação regulatória, notadamente concedida ao papel do psicólogo que é sempre visto com aquele que conserta, que traz de volta à normalidade, e passa a ser uma ação emancipatória, que possibilita ao individuo o desenvolvimento da sua atuação no seu meio, para que não fique apenas como vítima do mesmo, mas que possa atuar sobre ele e com isso mudar a própria sociedade e os valores, passando agora a não ser mais um individuo, um ser passivo que sofre influências, mas um sujeito, um ser ativo que é constituído por sua realidade histórica e social e que ao mesmo tempo, em uma dialética perene, modifica sua própria realidade social e proporciona para si e a seus descendentes uma realidade histórica diferente.
REFERENCIAS
LEONARD, A. A história das coisas. Situado em: http://sununga.com.br/HDC/index.php?topico=texto. Acesso em: 20/11/2008.
NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 168-169.
BENJAMIN W. -– Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.



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